Defensores Da Viola (KA 1354) - (1997) - Dino Franco e Mouraí

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A Cachaça E O Fumo
Eu deitei de madrugada com a cabeça atordoada e o peito cheio de sarro
Antes de dormir ainda eu tomei mais uma pinga e acendi mais um cigarro
A pinga desceu queimando e a fumaça foi entrando e eu prestei bem atenção
Escutei quando a cachaça conversava com a fumaça pertinho do coração

A pinga com imponência contou sua procedência disse que era interiorana
Dizia pra sua amiga eu sou de família antiga minha mãe se chama cana
Eu nasci numa engenhoca e gosto desses boboca que me beija toda hora
Mas quem comigo se ilude vai perder sua saúde e morrer antes da hora

Depois da dona cachaça quem falou foi a fumaça e dizia sorridente
Eu sou filha do tabaco o sujeito que eu ataco logo vai ficar doente
Sou amiga da bronquite e o cara que me admite vai ter um triste fadário
Mas se ele gosta de mim pois então que seja assim ninguém manda ser otário

Depois que elas conversaram as duas se separaram trocando aperto de mão
A pinga subiu depressa e a fumacinha perversa foi pra dentro do pulmão
Não sei se eu estava sonhando eu vi o mundo girando e comecei a tossir
Meio vivo e meio morto senti tanto desconforto e não pude mais dormir

Aquele assunto sem graça do fumo com a cachaça estava me perturbando
Comecei ficar com medo levantei cuspindo azedo o dia estava clareando
Assim que me levantei no quarto me ajoelhei falei com Deus nosso Pai
Jurei por Nossa Senhora e torno dizer agora não fumo e não bebo mais

Moço Ladino
Vou cantar a aminha vida do tempo que eu fui menino
Eu morava em Agissei um lugar bem pequenino
Só vivia endefluxado espirrando e tossindo
Trabalhar eu não podia por ser fraco e franzino
Eu era um moleque tonto desses que só vive rindo
Mas o tempo foi passando eu fui me diferenciando fiquei um moço ladino

Quando completei quinze anos fiquei muito mais traquino
Se me falasse de um baile pra lá eu tava seguindo
Levava meu cavaquinho com as cordas reluzindo
Bebia umas quatro pinga e já ficava tinindo
Cantava minhas modinhas com o velho Zé Cirino
Mais depois eu me tocava porque ninguém me pagava veja que povo ladino

Eu só voltava pra casa quando o sol vinha saindo
Cambeteando pros caminhos por todo lado cuspindo
Ainda parava um pouco na vendinha do Rufino
Lá eu ficava esperando a jardineira do Bino
Quando a condução chegava num canto eu tava dormindo
Ali mesmo eu ficava porque ninguém me chamava veja que povo ladino

O rapaz que bebe pinga perde a vergonha e o brio
O Rufino me falou a jardineira passou e você fez que não viu

Minha mãe dava conselho e me tratava com mimo
Meu filho não beba mais pra não estragar seu tino
Faço gosto que você case com a filha do Justino
Certo dia me casei e mudei o meu destino
Veio uma filharada que até me desanimo
A mulher mudou meu jeito mais pra contar bem direito eu sou um moço ladino

Epifonema
Enquanto um gorducho no horário político 
Prometia coisas de maneira enfática
Resolvi fazer esse quadro analítico
Da situação que está problemática

Medida de choque revolta os críticos
Qualquer situação é sempre traumática
A verba que falta em programas pacíficos
Costeiam projetos de guerras galácticas

Depois da novela programa humorístico
A pornografia é sempre a temática 
O mundo na mira de mísseis balísticos
Que são acionados de forma automática

Salários ajustados por números místicos
E a gente aprendendo a nova matemática
Miséria no mundo é um quadro realísticos
Mas barriga cheia deixa a gente apática

O trailer de um filme de sexo explícito
Depois do seriado de um homem biônico
No jornal denuncia de ágios ilícitos
E a vinda de um novo pacote econômico

Aumento da AIDS e ataques cardíacos
Atentado a bomba e acidentes atômico
Dinheiro e sucesso pré diz o zodíaco
Enfeites de estante são livros canônicos

Não tenho interesse na rota do tráfico
Nem sei de que se trata essa tal cibernética
Tive pouco estudo, não sou catedrático
Até me envergonho da minha dialética

Não entendo nada de assuntos políticos
Nem de economia, tão pouco de estética
Só fiz este enfoque com fim especifico
De exercitar a minha veia poética

Rainha Do Meu Rancho
Depois de tanta promessa me casei coma rosinha
No dia cinco de agosto, quinta feira de tardinha
Peguei a nossa mudança e levei lá pra torrinha
Comprei um alqueire e meio e formei uma chacrinha
Meti fogo na tiguera e plantei nossa rocinha
Enchi o paiol de milho e o quintal de galinha

Aqui nesse pé de serra quase ninguém me vizinha
Eu respiro o ar mais puro bebo água da biquinha
Eu planto feijão de vara e mandioca vassourinha
Tenho porco no chiqueiro e também uma vaquinha
A mulher me ajuda muito não reclama e é boazinha
Nossa vida deu tão certo que nem faca na bainha

Nem bem amanhece o dia já levanta a caboclinha
Varre a casa e o terreiro cantarolando sozinha
Me serve café com broa e prepara a panelinha
Apronta nosso virado com ovo de cordorninha
Fico tão envaidecido com a minha mulherzinha
Ela faz falta na cama porém sobra na cozinha

Agradeço a santo Antônio por eu ter nessa casinha
Esta cabocla sincera da feição tão coradinha
Eu sou inteirinho dela e sei que ela é só minha
Até rezo de contente no altar da capelinha
Tem dia lá no meu rancho que afino a violinha
Ela senta do meu lado e escutando essa modinha

Para aumentar mais nossa sorte vai vir uma criancinha
Veja que felicidade a mulher já tá gordinha
Ela quer que seja homem eu quero uma menininha
Enfim o que vier tá bom já vou arranjar madrinha
Nossa vida aqui no mato nunca sai fora da linha
No meu rancho eu sou o rei e a mulher minha rainha

Caboclo Nato
De um certo tempo pra cá me tornei um homem chato
Se escuto algum desaforo já xingo o cara no ato
Perdi a calma que eu tinha depois que saí do mato
Hoje eu moro na cidade só recebendo maus tratos
Num barraco apertadinho cheio de pulga e de rato

No sítio que eu morava tudo era mais barato
Fazia minha comprinha na venda do Honorato
Andava de qualquer jeito e nem usava sapato
Meu pé era esparramado igualzinho pé de pato
Mais eu me achava bonito até pra tirar retrato

Quando eu me lembro da roça me aborreço de imediato
Até parece que escuto o chorinho de regato
Meu cavalinho Petiço encheu-se de carrapato
Meu cachorrinho vaqueiro ligeiro igual um gato
Nunca mais festejou, êta mundão velho ingrato

Adeus minha espingardinha do meu tempinho pacato
Eu moro aqui na cidade mas sou um caboclo nato
Não posso voltar pra roça já perdi o meu mandato
Quando a nossa idade chega a morte é mesmo um fato
Espero o final da vida seguro num sindicato

Festa De São Gonçalo
Vou cantar par são Gonçalo, cumprir com minha obrigação
São Gonçalo do Amarante a quem tenho devoção 
São Gonçalo do Amarante a quem tenho devoção 

Tocando minha viola eu reúno o pessoal
Rezando pra São Gonçalo o santo de Portugal
Rezando pra São Gonçalo o santo de Portugal

Minhas dores terminaram nada, nada mais eu sofri
Agradeço a são Gonçalo pelo bem que recebi
Agradeço a são Gonçalo pelo bem que recebi

São Gonçalo do Amarante protetor do violeiro
Pedimos que nos ajude no correr do ano inteiro
Pedimos que nos ajude no correr do ano inteiro

Meu querido São Gonçalo, venho pedir um favor
Conservai sempre comigo a voz do seu cantador
Conservai sempre comigo a voz do seu cantador

Milagroso São Gonçalo santo que eu quero bem
Já cantei na sua festa até no ano que vem
Já cantei na sua festa até no ano que vem

João Catira
Do fundo da serra grande pelas furnas do Pari
Das rebarbas do sobrado não distante Buriti
Distante também do tempo há muitos anos daqui
A poeira levantada lá do céu não quer sair
Um sinal que ainda inspira sapateia João Catira pra poeira não cair

Os seus pés da lida bruta na poeira e na geada
Marcado pelos estribos e das pedras das estradas
O arrepio da noite da coragem redobrada
Pra quem tem felicidade no cheiro da madrugada
Os seus passos de felino eram pé de bailarino nas festanças afamadas

Muitas mulheres bonitas de distante paradeiro
Buscavam o coração do famoso catireiro
Trabalhador e artista orgulho dos companheiros
João Catira sapateava corações em desespero
Se apaixonou por Rosinha que foi a sua rainha flor mimosa do roceiro

Saudoso tempo passado de romantismo e amores
Alma pura da caipira que o poeta dá valor
A poeira levantada pelos pés do dançador
Borda no céu uma estrela como se fosse uma flor
João Catira sapateia no clarão da lua cheia dança pra Nosso Senhor

Peão De Ouro Fino
Veio lá de Ouro Fino do sul de Minas Gerais
Um ginete bom de lida outro igual não se vê mais
Foi culatra e foi ponteiro e também foi capataz
No porto do Tabuado já boiada a nado seguindo rumo a Goiás

Já montou em burro brabo e deixou manso de lida
Já tirou de carrasqueiro muita boiada perdida
Já viveu horas amargas longe da terra querida
Na estrada boiadeira já venceu muitas barreiras sem temer nada na vida

O peão de quem eu falo vou dizer seu nome agora
Ele usa chapéu grande e lenço que não descora
Conduziu boiada xucra por este mundão afora
É o Antônio Generoso o peão mais corajoso que corta burro na espora

Ao falar de sua vida fico até emocionado
Eu me lembro com saudade do meu tempo já passado
Ele sabe muito bem que já fui peão viajado
Mas um dia num transporte eu mudei a minha sorte por um rosto delicado

Este moço generoso sempre foi o rei dos peões
Repicou o seu berrante nos mais distantes rincões
Tem sua alma repleta de gratas recordações
Mas um dia sua amada tira ele da estrada e une dois corações

O vai e vem desta vida sempre traz sorte mesquinha
O peão de punho de aço um dia caiu no laço da boiadeira Leninha

Padrasto Cruel
Acontece tantas coisas que nos deixa abismado
São as tais fatalidades que o povo tem falado
Isto que eu vou contar aconteceu no passado
Na cidade de Barretos um padrasto enciumado
Matou sua enteada loucamente apaixonado

Eu não vou citar os nomes deste fato comovente
Nem do padrasto assassino nem da pobre inocente
Fui um crime passional que revoltou muita gente
Tudo está registrado para ficar mais patente
Que a justiça verdadeira vem do Pai onipotente

Adentrei o campo santo de Barretos certo dia
E visitei o jazigo na tristonha Ave Maria
Era uma tarde longa silenciosa e muito fria
Muita gente ali rezava eu também fiz companhia
Misturei os meus pesares com as dores da família

Quando o sino da capela faz ouvir seu lanhecer
Todos vão se retirando vem chegando o anoitecer
No gemido do cipreste sinto minha alma doer
Parece até que escuto uma assim dizer
Que o dia de juízo não demora acontecer

Esse padrasto cruel já faz parte dos mortais
Ele vai ser condenado pelo altos celestiais
Vai findar seus negros dias nos presídios cavernais
Criminoso sem perdão para Deus não se refaz
Ele morre para sempre e não volta nunca mais

Coice De Mula
Eu acho bonito a simplicidade até a vaidade a gente aprecia
Da mulher vaidosa vaidade se espera mas quando exagera é antipatia
Eu fui numa festa com vários amigos esperem que eu digo o que aconteceu
Vi uma madame bastante afetada coisa mais enjoada ninguém conheceu
Eu liguei no carro o meu toca fitas pra ouvir uma moda de viola bonita
Foi quando a madame o nariz retorceu

Ela fez um gesto de mulher luxenta e que não aguenta meu modo caipira
Vou contar direito o jeito da dona essa bocozona já tá meio gira
É uma professora sem muita paciência não tem competência nem na sua escola
O marido dela vive num inferno nas noites de inverno coitado rebola
Ele sai de casa e vai pela rua do mel de uma noite só sobrou a lua
Porque a bruaca não dá meia sola

Meu protesto é curto, mas desce o sarrafo é o meu desabafo pra aquela cretina
Se ela não gosta de moda de viola porque me amola quando eu faço rima
Eu quebro seu queixo com versos dobrados ameaço de lado e bato no meio
Eu mostro pra ela que minha investida é causa vencida e não faço feio
Caboclo do mato quando é insultado é mais perigoso que um tigre acuado
E mula queixuda eu quebro no freio

Eu escuto sempre no meu toca fita modinhas bonitas que gosto demais
Das duplas que cantam de peito largado correndo os estados e as capitais
Levando a cultura através da poesia de noite e de dia na voz do violeiro
Eu fiz a gorducha descer da matula seu coice de mula foi um exagero
A viola caipira tem som comovente na rádio ou folia está sempre presente
Recebendo aplauso do Brasil inteiro

Casa Assombrada
Quando eu era boiadeiro tempo que não volta mais
Me aconteceu um fato que não esqueço jamais 
Fui levar uma boiada lá por sertão de Goiás 
Com mais sete companheiros eu que era o capataz 
Ao chegar em Catalão além de Minas Gerais 
Entreguei essa boiada deixei presa nos currais 
Dormi muito mal à noite com saudade de meus pais 
Logo no cantar do galo arreei o meu cavalo e parti sozinho pra traz

Viajei por nove horas no avanço da colina 
Quando foi chegando a tarde veio uma chuva fina
Não se via viva alma só as aves de rapina 
A chuva foi aumentando com as dunas de neblina 
Meu cavalo já cansado esforçava morro a cima
Pedi a Nossa Senhora uma proteção divina 
Nessa hora eu avistei lá em baixo da colina 
Uma casa abandonada resolvi fazer pousada nesse ermo chão de Minas

Pendurei a minha tralha e soltei meu alazão 
Com gravetos da parede acendi o velho fogão 
Enxuguei a minha roupa fiz minha cama no chão 
A casinha balançava no estrondo do trovão 
Uma coisa muito estranha foi me dando aflição 
Tive um pressentimento de alguma assombração 
Com o corpo arrepiado fiz a minha oração 
Me deitei todo encolhido comecei ouvir gemidos lá em baixo do porão

Aquele gemido feio perto de mim foi chegando 
Eu pensei que fosse alguém que ali ia passando 
Com a chuva que caía a casa foi gotereando 
A voz triste era de um homem que estava agonizando 
A casa é mesmo assombrada eu assim fiquei pensando 
Me benzi por muitas vezes e continuei rezando 
Um relâmpago mais forte entrou na sala clareando 
Olhei pro quarto do lado vi um homem enforcado na parede balançando

Eu saquei meu trinta e oito de miras especiais 
E gritei daqui vai fogo se defenda satanás
Se errei ou se acertei, tanto fez ou tanto faz 
Sei dizer que o tal gemido já não se ouvia mais 
O dia já vinha perto o sol já dava sinais 
Prossegui minha viagem na querência dos pinhais 
Deixei de ser boiadeiro mudei os meus ideais 
Despachei a peonada nunca mais levei boiada lá pras bandas de Goiás

Defensores Da Viola
O estado de São Paulo eu conheço passo a passo
Nele já ganhei dinheiro de guardar em grandes maços
Ganhei amizades de homens pobres e ricaços
Vou falar de alguns deles que merecem meu abraço
Começando por João Felix de José Bonifácio

Quando eu chego lá em Franca a violada principia
Com o parceiro Tiãozinho escritor de poesias
Tem também o Luiz Antônio o cantor das noites firas
Ele é um grande seresteiro que meu corpo até arrepia
Pra dizer bem a verdade é um mestre de cantoria

O caboclo Tita Zilo mora em Lençóis Paulista
É um grande defensor da bandeira treze listas
Ele com sua família qualquer coração conquista
De não ser doutor de nada nem tão pouco ativista
É um forte empresário e também ecologista

São José do Rio Preto é um berço de violeiros
Lá reside o Vieira um famoso catireiro
Meu amigo Cascatinha estupendo cancioneiro
Zé do Cedro e João do Pinho estimados companheiros
Zé do Rancho conhecido por este Brasil inteiro

É o nome do folclore o senhor Joaquim Moreira
O poeta Geraldinho sempre honrou nossa bandeira
O Taviano e o Tavares é uma dupla de primeira
Não posso falar de todos nesta trova derradeira
Mas envio meu abraço a violeirada brasileira

Músicas do álbum Defensores Da Viola (KA 1354) - (1997)

Nome Compositor Ritmo
A Cachaça E O Fumo Nhô Chico / Dino Franco Moda De Viola
Moço Ladino Dino Franco Moda De Viola
Epifonema Dino Franco / Pedro Ornelas Moda De Viola
Rainha Do Meu Rancho Nhô Chico / Dino Franco Moda De Viola
Caboclo Nato Dino Franco / Osmar Lopes Moda De Viola
Festa De São Gonçalo Dino Franco Moda De Viola
João Catira Erion Valentim Vieira / Durvalino Morales Moda De Viola
Peão De Ouro Fino Dino Franco Moda De Viola
Padrasto Cruel Dino Franco Moda De Viola
Coice De Mula Tenente Wanderley / Dino Franco Moda De Viola
Casa Assombrada Dino Franco / Ataide Gouveia Moda De Viola
Defensores Da Viola Dino Franco Moda De Viola
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