Manto Estrelado (CHANTECLER 211405663) - (1984) - Dino Franco e Mouraí

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Rainha Do Interior
Por entre a ramagem da verde campina
Nasceste menina com jeito de flor
As aves cantaram a tarde inteirinha
Nasceu a rainha do interior

Foste crescendo tão meiga, tão pura
Linda criatura nos campos de Deus
E eu pretensioso canto nas alturas
Mulher escultura meus versos são teus

Me vendo perdido sem crença, sem nada
Sem ter uma estrada por onde seguir
Saí pelos campos seguindo teus passos
Buscando teus braços, mas sem conseguir

Pensando que eras mulher simplesmente
Assim como a gente costuma encontrar
Andei pelos campos e ao ver tua imagem
Não tive coragem sequer de te olhar

Rainha dos campos dos rios e cascata
Das noites de prata do rico sertão
Não és tão somente a rainha das matas
Pois reinas, ingrata, no meu coração

Agora sem rumo vagueio na vida
Buscando, querida, poder te encontrar
Se um dia sentires tristeza incontida
A minha cantiga irá te alegrar

Casa Pobre
A minha casa longe do conceito nobre
É humildemente pobre, porém é muito feliz
O alicerce são dois esteios de gancho
É mais simples do que um rancho, que a sociedade diz
Suas paredes fecham poucas dependências
Cozinha quarto e despensa, mas dá bem pra mim viver
A cobertura é feita de tábua trincada
Onde minha namorada toda noite vem me ver

E prosseguindo preste atenção meu amigo
A namorada que eu digo não é mulher não senhor
Pra ser mais claro eu a amo de verdade
Porque nunca fez maldade para este morador
Ela me ama me inspira me adora
E quando ela embora não demora regressar
É a Lua branca toda esbelta meiga e pura
Que me abraça com ternura e me convida a sonhar

A minha casa fica bem junto à cascata
Onde os rumores da mata, é um hino matinal
É casa pobre como é pobre o seu dono
Não tem luxo e mordomo tudo é muito original
Os caminheiros que apontam da estrada
Por certo fazem caçoada desse pobre João Ninguém
É uma casinha simplesinha e esquisita
Mas quem me fizer visita juro que é dono também, dono também

Manto Estrelado
A luz da noite quando desce sobre o campo
Mais parece abrir um manto de estrelas a brilhar
O firmamento de azul todo enfeitado
É um vestido salpicado de brilhantes ao luar
E como é lindo a gente ver ao céu aberto
O sertão sendo coberto do esplendor que é todo seu
Tudo surgindo com requintes de beleza
A mostrar que a natureza, só podia vir de Deus

Aqui em baixo todo o campo orvalhado
Faz um céu do outro lado em perfeita imitação
Os pirilampos com ciúme das estrelas
Vão tentando convencê-las que são estrelas no chão
As muitas flores, qual noturnas namoradas
Vão se abrindo perfumadas, transbordantes de amor
Mas logo adiante quando o sol romper o dia
Vão dizer que queriam se arrumar pro beija flor

Clareando o dia é o sol que prevalece
Desde a hora que amanhece até um novo entardecer
As borboletas, cores vivas revoando
São matizes adornando nossos rios a correr
Tudo se passa neste mundo deslumbrante
O tesouro verdejante que tem nome de sertão
Onde o caboclo a cada estrela que aparece
Canta versos de uma prece, que lhe sai do coração
Sertão, sertão berço que me viu nascer
Sertão, sertão catarei até morrer

Estória Esquisita
Eu vou contar uma estória esquisita
Que não é nada bonita, que é até feia de contar
É uma estória que alguém pode até achar graça
Mas que foi uma desgraça que eu nem gosto de lembrar

Um certo dia terminada a colheita
Bem vestido, barba feita fui passear lá na cidade
Ir pra São Paulo capital do meu estado
Foi o meu sonho encantado, sempre eu tive essa vontade

Eu em São Paulo ia todo entusiasmado
A olhar pra todo lado vendo coisas pra contar
Quando uma loira de voz rouca e tão bonita
Uma tal Maria Rita me chamou pra conversar

Ela me disse com uma voz rouca em meus ouvidos
Bem atenda o meu pedido, com você quero morar
Eu retruquei sou um caboclo religioso
Só se eu for o seu esposo, só se a gente se casar

Ela então disse que um segredo possuía
E por isso não podia se casar, como eu pensei
Mesmo sabendo que não é coisa bonita
Eu peguei Maria Rita e pro meu sítio levei

Em minha casa, mal a Rita foi entrando
Toda a roupa foi tirando e o que eu vi que mal me fez
Levei um susto quando eu vi o seu segredo
E eu até corri de medo só voltei depois um mês

Pois escutando no rádio, o jornal
Um repórter policial explicou, eu entendi
Aquela loira de voz rouca e tão bonita
Nunca foi Maria Rita, era um tal de travesti

Direitos Iguais
Tudo terminado, não há mais segredo
Acabou mais cedo o caso entre nós
Fico amargurado guardando lembrança
Cantando esperança no peito e na voz

Você por seu lado sei que também sonha
Não tenha vergonha da nossa verdade
Quem foi tão sincera merece respeito
Tem todo direito á felicidade

Vai, vai com Deus amiga
Terminar sem briga já que foi bom demais
Vai, vai viver querida
Pois temos na vida direitos iguais

Todo fim de caso traz ressentimentos
Rancores, lamentos e dores sem fim
Porém o contrário se passou conosco
Muito mais de gosto lembrará de mim

Somos o exemplo do que é bom senso
E quanto mais penso mais vejo valor
Dissemos um dia com sinceridade
Mais vale amizade que um falso amor

Vai, vai com Deus amiga
Terminar sem briga já que foi bom demais
Vai, vai viver querida
Pois temos na vida direitos iguais

A Hipoteca
Há seis anos mais ou menos tomei de um banco emprestado
Uma soma de dinheiro tudo com prazo marcado
Deixei ali escritura e títulos endossados
Tudo como garantia do capital levantado 
Apliquei tudo em café que plantei com muita fé neste chão abençoado

A terra foi preparada e o tempo foi passando
Com muita luta e suor as minhas mudas fui plantando
Mas aí veio o agente do banco que estou falando
Me oferecendo vantagens eu logo fui aceitando
Disse ele sorridente você agora vai pra frente dinheiro está sobrando

Já na primeira colheita a estiagem arruinou
E na segunda a geada o meu cafezal queimou
Por fim o bicho mineiro meu patrimônio quebrou
Adiei os pagamentos, mas nada disso adiantou
Eu caí nessa desgraça a fazenda foi á praça, pois o banco protestou

Por causa dessa hipoteca eu convoquei minha gente
E com os olhos cheio de pranto disse em tom comovente
Nós vamos ser despejados por uma ação competente
Lavrada hoje em cartório em favor do emitente
Quero que a família entenda já não é nossa a fazenda o banco foi exigente

Isso que eu estou falando foi um caso comentado
Tive que deixar a roça e fui ser um empregado
O rico compra de tudo, o pobre pede fiado
Perdi a crença no banco meu nome foi protestado
Por isso que hoje em dia dispenso qualquer quantia de algum dinheiro emprestado

Lágrima Das Flores
Aquela casa junto a rua do cascalho foi o nosso agasalho quando havia amor em nós
Você deitava numa esteira no assoalho me abraçava e me beijava escutando minha voz
Nossa vida apesar de vida pobre era uma vida nobre como nunca vi igual
Na varanda lindas flores se abriam e os pássaros faziam revoada no quintal

Tentei salvar o nosso amor quando morria fiz de tudo que podia, mas foi tudo, tudo em vão
E descontente com a sua ironia fui perdendo minhas forças e também minha razão
Já sem jeito e tanto envergonhado peguei meus trapos guardados amargando minha dor
Que tristeza eu senti naquela hora oh! meu Deus, Nossa Senhora como dói o mal de amor

Até as flores que também tem alma e vida choraram na despedida com muita pena de mim
E o nosso amor que teve encontro festejado terminou em desagrado e em tudo demos fim
Aquela casa, aquela praça

Não Me Abandones

Por que não voltas, nem mesmo eu sei
Só sei que é grande a tua ingratidão
Tu me juraste como eu jurei
Ser para sempre a nossa união

Já te esquecestes daquele dia
Lá na capela junto do altar
Quando sorrindo a Virgem Maria
O nosso amor veio abençoar

Não me abandones mi paraguaia
Não vês que sofro sem teu amor
Não me abandones mi paraguaia
Índia morena ai tenha pena da minha dor

A Espanhola
O amor quando é profundo só faz a gente sofrer
O pensamento divaga sem mesmo a gente saber
Nasce no peito a saudade e um intenso querer
Amei alguém nesta vida porém me obrigou a dizer

Abrace, me abrace eu vim me despedir
Mais uma vez vou sofrer, amor por ausentar-me de ti, oh! flor
Aperte, me aperte neste corpinho teu
Breve terei que partir e quero te ver mais ser feliz neste adeus

Foi numa noite tão calma quando eu me despedi
Toda tristeza da vida no coração recolhi
Fiz um aceno aos amigos quis falar, não consegui
Dizem que homem não chora porém quase que não resisti

Abrace, me abrace eu vim me despedir
Mais uma vez vou sofrer, amor por ausentar-me de ti, oh! flor
Aperte, me aperte neste corpinho teu
Breve terei que partir e quero te ver mais ser feliz neste adeus

Escondendo Sentimentos
Como é difícil essa tal felicidade
Quando se tem amizade misturada com amor
A gente ri, a gente chora, a gente canta,
Sentindo um nó na garganta escondendo a própria dor

Isso acontece quando dois não se declaram
E um dia não pensaram que o tempo irá passar
Viverão sempre escondendo sentimentos
Perdendo belos momentos pelo medo de amar

Como é difícil essa tal felicidade
Quando se tem amizade misturada com amor
A gente ri, a gente chora, a gente canta,
Sentindo um nó na garganta escondendo a própria dor

Amargurado vou viver eternamente
Evitando justamente uma feliz união
Depois de velho tentei possivelmente
Quando tudo infelizmente, já matei no coração

Barqueiro Solitário
Quando navego em meu bote de madeira
Nas correntezas do velho rio Ivinhema
Em suas praias eu avisto as lavadeiras
E entre elas uma linda flor morena

Batendo roupa ou areando panela
Essa donzela de feição meiga e serena
Não imagina a paixão deste barqueiro
Que atravessa o dia inteiro a pensar nessa pequena

É que a morena após a lida no rio se banha
E o sol da tarde beija seu corpo que mais parece um perfil de flor
E a garça branca mais que depressa pra longe voa
Talvez por ciúmes dessa cabocla que já é dona do meu amor

Ela me chama de barqueiro amoroso
E acenando seu lencinho perfumado
Brota em seu rosto um sorriso vergonhoso
Essa magia mais me deixa apaixonado

E junto dela numa rede de taboa
Não me enjoa ver dois seios sedutores
Me enlouqueço, quase morro de desejo
E assim então me vejo mais aflito em dissabores

É que a morena após a lida no rio se banha
E o sol da tarde beija seu corpo que mais parece um perfil de flor
E a garça branca mais que depressa pra longe voa
Talvez por ciúmes dessa cabocla que já é dona do meu amor

O Maior Calote
Meu pai deixou este mundo quando eu era molecote 
Um sítio de dez alqueires ele me deixou de dote
Um fazendeiro vizinho por nome José Benotti 
Pra tomar o meu terreno começou a fazer boicote
O danado fazendeiro me passou diversos trotes 
Por falta de experiência eu levei muitos calotes

Eu dei quatro bois de carro em troca de um garrote 
Dois burros e um arado eu troquei por um serrote
Troquei um trator de esteira por um cavalo de trote
Cheguei a trocar duas vacas por um galo e um corote
Todo terreno que eu tinha eu dei em troca de um lote
Até que eu fiquei sem nada no meu rancho de barrote

O homem era valente me chamava de fangote
E se eu fosse reclamar apanhar de chicote
Mas o tempo foi passando quero que vocês anotem
Como faz a cascavel resolvi dar o meu bote
Fugi com a filha dele o italiano deu pinote
Parecia uma pantera quando perde o seu filhote

Eu agora sou casado já não sou mais um pichote
Faço parte da família e vivo de camarote
Eu que mando na fazenda não dou bola pro velhote
Tenho dinheiro no banco e até ouro em lingote
Pra deixar o velho brabo gosto de fazer fricote
De usar cordão de ouro tenho calo no cangote

De pobre fui a riqueza compro e vendo marrote 
Ando cheio do dinheiro tenho joia no malote
Quando eu era coitadinho me fizeram de coiote
Mas agora eu mato a sede na água fresca do pote
Eu fiz um grande negócio daquele belo pacote
Deixei falando sozinho o meu sogro Zé Benotti

Músicas do álbum Manto Estrelado (CHANTECLER 211405663) - (1984)

Nome Compositor Ritmo
Rainha Do Interior José Homero / Tenente Walderley Rasqueado
Casa Pobre Dino Franco Toada
Manto Estrelado Dino Franco / Tenente Walderley Toada
Estória Esquisita Dino Franco / Agildo C. Mieli Xote
Direitos Iguais Dino Franco / Tenente Walderley Guarânia
A Hipoteca Dino Franco / Oswaldo De Andrade Moda De Viola
Lágrima Das Flores Dino Franco / Virgínia Guimarães Toada
Não Me Abandones Raul Torres / Nolo Lopes / A. Cabrera Guarânia
A Espanhola Vicenzo Di Chiara / Aparecida Melo Rancheira
Escondendo Sentimentos Dino Franco / Tenente Walderley Tango/Guarânia
Barqueiro Solitário Dino Franco / Oswaldo De Andrade Polca
O Maior Calote Dino Franco / Nhô Chico Cururu
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