Modas De Viola Volume 3 (CHANTECLER 211405750) - (1987) - Dino Franco e Mouraí

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Um Pouco Da Minha Vida
Eu morei numa fazenda que mais feia não havia
Era uma furna de serra que de serração cobria
Só depois de nove horas que o sol aparecia
E pra onde agente olhava só montanhas que se via
Lá pras bandas do poente como sufocava agente quando à tardinha morria

O lugar era assombrado minha mãe sempre dizia
Que certas horas da noite um gemido se ouvia
Era um ai, ai, tão triste que no quintal se expandia
Minha mãe ao lembrar disso, ela conta e se arrepia
Não tinha vizinho perto vejam que lugar deserto de nós só Deus que sabia

Não muito longe de casa um piquete existia
Onde meu pai conservava as nossas vacas de cria
Era preciso cuidado quando um bezerro nascia
Devido ter muito lobos por aquelas cercanias
Lembro-me bem como era o uivado dessas feras na solidão se perdia

Eu ainda era criança quase pra nada servia
Mas tirava doze e meia na enxada todo dia
O meu joguinho de malha era o que mais me entretia
Até que meus pais mudaram era assim que eu vivia
Hoje eu moro na cidade mas recordo com saudade minha velha moradia

Lamentos De Um Peão
Me chamam de boiadeiro, boiadeiro é o meu patrão
O boi é do fazendeiro eu não passo de um peão
Quando toco um aboiada me admiram sem razão
Eu sou mais um boi na estrada empoeirenta do sertão
Eu sou mais um boi na estrada empoeirenta do sertão

Nasci num rancho de tábua me criei num mangueirão
Entre eu e a boiada não existe distinção
O boi dorme na invernada fazendeiro na mansão
Eu rumino minhas mágoas lá no fundo de um galpão
Eu rumino minhas mágoas lá no fundo de um galpão

Não me chamam de boiadeiro por que isso eu não sou não
Dono de boi de tem dinheiro eu só tenho solidão
A minha maior tristeza é viver na ilusão
Se sonho fosse riqueza eu seria um barão
Se sonho fosse riqueza eu seria um barão

Quando pensei que era gente piorou a situação
Me apaixonei loucamente pela filha do patrão
Mas pra o moço da cidade ele deu seu coração
Ao longo do meu caminho vou morrendo de paixão
Ao longo do meu caminho vou morrendo de paixão

Cuiabana
Quando eu fui pra Mato Grosso conheci uma cuiabana 
Morena cor de canela conhecida por Mariana 
Convidou com muito agrado pra chegar em sua cabana 
Era a moça mais bonita lá na festa de Santana 

Me despedi da cabocla na estrada de Aquidauana 
Coração descompassou nos braços cuiabana 
Voltei pela Noroeste segui pra Sorocabana 
Sem nunca esquece na viagem o semblante de Mariana

Eu escrevi uma carta pra essa linda cuiabana 
Pedindo ela em casamento viver na minha cabana
Falei da minha fazenda com cem alqueire de cana 
Falei de outras riquezas em toda a linha mogiana

Eu esperei confiante a resposta da Mariana 
A sua carta chego depois de quatro semanas 
Quando eu li a resposta vi quanto era desumana 
Me respondeu com desprezo aquela ingrata tirana

Eu vendi tudo que tinha e fui pra terra goiana
Chorando a dor da saudade o desprezo da Mariana
Depois da desilusão da malvada cuiabana
Eu quero morrer solteiro e mulher jamais me engana

Caboclo De Sorte
Lá na vizinhança que eu sou morador sem que eu esperava arranjei um amor
Ela é tão bonita parece um flor tem os olhos pretos enfeitiçador
Por essa morena sofro que é um horror e ela quase que regula a minha cor

Talvez por receio ou de opinião ela não deixava nem pegar nas mãos
Eu pedi um beijo ela disse não, mas com muito jeito fiz arrumação
Por eu ser violeiro e bom folgazão ganhei por toda vida o seu coração

Se é coisa que eu gosto é ser violeiro e levar a fama de bom catireiro
Recebo convite do Brasil inteiro já cantei de viola até no estrangeiro
Acho muito fácil ganhar o dinheiro o mais difícil é ficar sempre solteiro

Meu futuro sogro é um homem direito homem de palavra e de muito respeito
Eu pedi a moça ele ficou sem jeito mordeu no cigarro e bateu no peito
Perguntou pra filha se era bom sujeito mas ela respondeu que sim eu fiquei satisfeito

Com o sim do velho me aumentou a fé me senti tão grande como o rei Pelé
Hoje falo alto hoje bato o pé ganho muitos beijos e muitos cafunés
A sorte que eu tenho muita gente quer vou me casar no fim do ano se Deus quiser

Porto Esperança
No dia cinco de março trago sempre na lembrança
Até hoje eu me recordo foi numa semana santa
Fui buscar uma boiada na estação Porto Esperança
Onde eu fiquei encantado, oi, ai, foi por uma rosa branca

Eu saí estrada afora, com a comitiva inteira
Viajamos muitas léguas pra chegar em Pitangueira
Cheguei em Porto Esperança foi numa segunda feira
Lá fiquei apaixonado, oi, ai, por uma linda mineira

Na entrada da fazenda do senhor Juca Pinheiro
Recebi muitos agrados eu e mais meu companheiro
Saiu uma linda morena no seu cavalo ligeiro
Sozinha fez o rodeio, oi, ai, naquele gado campeiro

Apartei minha boiada despedi do fazendeiro
A morena acompanhou até saí no ribanceiro
Na hora da despedida solucei em exagero
Adeus cabocla bonita, oi, ai, perdição de um boiadeiro

Se eu te deixo não sossego de saudade não aguento
Eu vim tocando a boiada mas com grande sentimento
Caminhava muito triste só ela no pensamento
Adeus linda flor do campo, oi, ai, só me dá padecimento

Retrato Do Boi Soberano
No braço desta viola quero contar quem eu sou
No meu tempo de menino este caso se passou
Fiquei ciente da história porque meu pai me contou
O velhinho foi falando com a voz quase apagando
De seus olhos marejando duas lágrimas rolou
 
Meu filho nunca duvide do poder do Criador
O retrato de um boi preto nesta hora me mostrou
Esse boi é o Soberano que um dia te salvou
Não me sai mais do sentido quando vi você perdido
Na hora fiz um pedido e o milagre Deus mandou
 
Na cidade de Barretos muita gente presenciou
O passar de uma boiada com destino ao matador
Num repique de um berrante a boiada estourou
Neste momento tirano você estava brincando
Quando o boi soberano na sua frente parou
 
Um grito do boiadeiro de muito longe escutou
A rua cobriu de poeira quando a boiada passou
Quem assistiu a passagem de emoção até chorou
Esse boi te defendia com tamanha valentia
Que até chorei de alegria e o povo se admirou
 
Esse caso do passado assim meu pai me contou
Do milagre acontecido eu fiquei conhecedor
Fui crescendo e fiquei moço hoje sou um cantador
Vou seguindo o meu destino e por um milagre divino
Eu sou aquele menino que o soberano salvou

Do Que O Boiadeiro Gosta
Do que o boiadeiro gosta em sua longa jornada 
É sentir poeira no rosto é o pó-de-arroz da estrada
Sentir cheiro de gado que traz o vento na tarde
Qual o perfume mais caro dos grã-finos da cidade 

Do que o boiadeiro gosta é um som sentimental
Do berrante que virou instrumento musical 
Em muitos discos que ouve no final de uma canção 
Um berrante repicando como um grito de sertão

Do que o boiadeiro gosta é dormir sobre o baixeiro
tendo o céu por cobertor e o capim por travesseiro
No grande quarto da noite a grama verde é o colchão
No telhado do infinito o luar é seu lampião

Do que o boiadeiro gosta é nas tardes de mormaço 
Fazer um boi pantaneiro rolar na ponta do laço 
Do que o boiadeiro gosta é ouvir pelas pousadas 
Os peões contando casos de um estouros de boiada

Do que o boiadeiro gosta é ver a branca neblina 
Que se forma na baixada e sobe pela colina 
Aonde a boiada dorme do espigão às encostas 
Gostoso é também gostar uê boi, do que o boiadeiro gosta

Triste Desengano
Sou velho, mas ainda tenho recordação do passado
O tempo da mocidade sempre deve ser lembrado
Eu amei uma menina e junto fomos criados
Eu ganhei seu coração o meu já tinha lhe dado
Quando nós dois se encontrava de alegria se abraçava dando suspiro trocados

O cantar de um sabiá foi o que me entristeceu
Recordei daquela aldeia onde nosso amor nasceu
Mas depois de um certo tempo não sei o que aconteceu
Fiquei sem minha querida que um tempo me pertenceu
Seria melhor a morte que ter essa triste sorte que não me favoreceu

Quem teve amor e perdeu não deve fazer mais planos
Deixei dos divertimentos meu cabelo estão branqueando
Eu amei essa menina na idade de quinze anos
Tão criança conheci como é triste um desengano
Este peito dolorido dos golpes que tem sofrido este foi o mais tirano

Então eu fiz esta moda do cantar dos passarinhos
Primeiro eu fiz a toada depois fazer os versinhos
Lembrando de minha amada comecei cantar baixinho
Não procurei companheiro por isso eu tenho o meu pinho
A moda de um triste assunto não gosto de cantar junto preciso sofrer sozinho

Hoje eu tive essa lembrança por ser um bom trovador
Analisando meus versos achei que tinha valor
Dois eu mandei de presente pra minha querida flor
Um verso levou saudade outro foi pedir um favor
É pra ter minha querida lembrança da nossa vida saudade do nosso amor

Adeus Campina Da Serra
Adeus campina da serra lugar que eu fui morador 
O meu triste coração muitas delicias gozou 
No prazo de pouco tempo o meu gosto se acabou 
Despediu-se e foi embora quem nesta terra morou

A minha rasa adorada há tempo se retirou
Deu o vento na roseira a rosa se desfolhou
Quando ela se despediu todo roseiral murchou 
De paixão e sentimento o meu coração chorou
Adeus campina da serra adeus coração traidor
Adeus corpo delicado rosto lindo matador
Foi tão triste a madrugada quando ela se embarcou
As ondas do mar quebrou-se a maré veio e levou

Adeus coração de bronze por outro me desprezou
Hoje vivo abandonado por quem tanto me estimou
Foi um dia de tristeza quando a rosa se mudou
Quanta dor quanta saudade no meu peito ela deixou

Adeus carinha de santa rainha de toda a flor
Eu na minha mocidade fui um moço de vigor
Eu já fiz amor dos outros suspirar sem sentir dor
Hoje me vejo sozinho sofrendo falta de amor

Morte Da Bugrinha
Com destino à Bahia eu deixei o meu estado
Na beira do Rio do Peixe quando cheguei do outro lado
A bugrada me prendeu num tronco fui amarrado
Noutro dia bem cedinho pra morrer fui condenado

Esperando a triste hora eu vi a tribo dançar
Uma bugrinha bonita começou me namorar
Fazendo o sinal com a mão ela veio me explicar
E arranjou uma canoa para poder me salvar

Vendo a bugrada entretida nesta hora me escapei
Com a bugrinha por diante na beira do rio cheguei
Fui dizer adeus pra ela mas coragem não achei
Carregando ela nos braços na canoa embarquei

Um bugre estava sondando no alto de uma ramada
Quando ele viu a canoa atirou uma flechada
A bugrinha deu um gemido e no rio caiu deitada
Deixando um rastro vermelho naquelas águas prateadas

Aquele rosto moreno disse adeus e afundou
A canoa foi descendo num pranto cheio de dor
Meu coração de caboclo deste peito se apartou
No fundo do Rio do Peixe com a bugrinha ele ficou

Violeiro Solteiro
Por eu ter notícia de um bom cantador
E uma linda moça de nosso interior
Pediu que eu cantasse ao menos por favor
Nem que fosse um verso do mais inferior
Respondi pra ela eu não sou professor
Tudo quanto eu canto tem pouco valor
Mas meus versos servem pra acalmar a dor
De um peito que sofre ingratidão de amor
 
Afinal de contas fiz o seu mandado
Cantei um versinho muito bem cantado
Ela agradeceu com muitos agrados
Eu fiquei contente fiquei obrigado
Cantei um versinho do cabelo ondeado
Ela também tinha o cabelo cacheado
Deu cinco suspiros e me chamou de um lado
Perguntou se eu era solteiro ou casado 
 
Menina, menina você se periga
Deixe de bobagem largue mão de intriga
Casar com violeiro é pra viver de briga
Você se aborrece das próprias cantigas
Pra largar não pode porque Deus castiga
Pois eu sou violeiro e não faz mal que eu diga
Ouça meus conselhos avise suas amigas
Que toque de viola não enche a barriga             

Por isso que eu digo que um rapaz solteiro
Pra gozar a vida deve ser violeiro
Viajar embarcado sem gastar dinheiro
Se quer namorada tem até milheiro
Entra no salão com os olhos morteiros
O cantar sereno de dois companheiros
Na mais bonitinha bate o um desespero
Da meia-noite em diante está no cativeiro
 
Eu falo a verdade não é intimação
Nas festas que eu chego com a viola na mão
Canto alguma moda é por inclinação
Toco na turina responde o bordão
Dois peitos serenos dentro de um salão
Já vê as morenas mudar de feição
Por que meus versinhos doem no coração
Quem sofre saudade morre de paixão

Tristeza Da Saudade
Eu me lembro quando era criança as historias do meu velho pai
Uma roda animada de truco, uma tarde lá em São Thomás
Eu vi muitos truqueiros de fama ganhar jogos com dois, três e Áz
Que saudade desse tempo que não volta mais

Certo dia deixei a fazenda fui em busca de uma profissão
Viajei este mundo lá fora como faz um heroico peão
Conheci muita coisa na vida vi de perto a evolução
Que saudade que eu sinto do cheiro do chão

O progresso me fez ir à luta conviver com gente importante
Muito embora isso me agradasse, mas ainda não era o bastante
Eu conheço homens literários que não sabem pegar um berrante
Que saudade das boiadas de um tempo distante

Conheço a vida do campo e a vida da cidade
Só não quero conhecer, meu bem, a tristeza da saudade

Hoje em dia tenho observado nada mais é como antigamente
O berrante ficou esquecido o silêncio é que se faz presente
Do roceiro cheguei a doutor minha vida ficou diferente
Que saudade de um passado que trago na mente

Músicas do álbum Modas De Viola Volume 3 (CHANTECLER 211405750) - (1987)

Nome Compositor Ritmo
Um Pouco Da Minha Vida Dino Franco Moda De Viola
Lamentos De Um Peão Dino Franco / Tenente Walderley Moda De Viola
Cuiabana Ado Benatti / Tonico Moda De Viola
Caboclo De Sorte Dino Franco / Tião Carreiro Moda De Viola
Porto Esperança Tonico / Miguel Paletti Moda De Viola
Retrato Do Boi Soberano Dino Franco / João Caboclo Moda De Viola
Do Que O Boiadeiro Gosta J. Dos Santos / José Fortuna Moda De Viola
Triste Desengano Teddy Vieira / Zé Carreiro Moda De Viola
Adeus Campina Da Serra Raul Torres / Cornélio Pires Moda De Viola
Morte Da Bugrinha Teddy Vieira Moda De Viola
Violeiro Solteiro Zé Carreiro / Carreirinho Moda De Viola
Tristeza Da Saudade Dino Franco / Sebastião C. De Figueiredo Moda De Viola
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